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O Menino do Vento | Uma história de vida, trabalho e abnegação

18 de novembro de 2020

O Menino do Vento | Uma história de vida, trabalho e abnegação

 

OSKAR COESTER faleceu na manhã desta terça- feira (17/11) de causas naturais, em casa junto com a família, aos 82 anos. Ele se recuperava de um AVC e não resistiu a complicações em decorrência da doença.

 

Oskar Hans Wolfgang Coester nasceu na cidade de Pelotas, em 26 de setembro de 1938. Seus pais, imigrantes alemães, esta- vam estabelecidos no Brasil havia poucos anos e se adaptavam à  vida  do  interior  do Rio Grande do Sul. Seu interesse pelo transporte e pela tecnologia começou ain- da quando criança, quando fugia  da  sala de aula para ver os trens na estação de Pe- lotas e desmontava e remontava relógios para entender seu funcionamento.

 

Aos quatorze anos, movido pelo seu interesse em mecânica e funcionamento de máquinas, Oskar Coester passou no exame de admissão na Escola Técnica de Pelotas, em 1952. A Escola, fundada na década de 1940 pelo então presidente Getúlio Vargas, fazia parte do plano de incentivo do governo à indústria e à tecnologia nacional. Ao longo de sua formação, Oskar Coester passava longas horas nas oficinas da escola, muitas vezes madrugada adentro, absorto no trabalho com motores e em diferentes experimentações científicas. Esta fixação pela mecânica lhe rendeu o apelido de “O Cientista” entre os professores e colegas e resultou na criação de um torno e de um motor à combustão interna de dois cilindros.

 

Além disso, Oskar Coester desenvolveu interesse pela aviação e, em um dos galpões da Escola Técnica de Pelotas, projetou e construiu um protótipo de pulsojato. O acionamento do protótipo, às duas horas da manhã, gerou um barulho ensurdecedor na vizinhança, que acordou alarmada para ficar sabendo que se tratava do experimento de um dos alunos.

 

No decorrer de sua formação, Oskar Coester cursou modelagem, fundição, mecânica e elétrica. Formado e com dezessete anos, ele decide deixar Pelotas e ir para Porto Alegre, com o intuito de ingressar na VARIG – Viação Aérea Riograndense, pela EVAER (Escola da Varig), e inicia sua carreira como técnico em mecânica e eletrônica de aviões.

 

No final dos anos 1950, a indústria mundial de aviação passava pela transição da tecnologia de hélice para a de jato. A VA- RIG se destacou globalmente como uma das protagonistas neste processo, com a incorporação de dois BOEINGs 707 à sua frota. A instrumentação interna de voo também passou por grandes mudanças e, para fazer frente a esse novo momento, a empresa contratou pessoas do setor técnico para realizar a manutenção e receber treinamentos para essas novas aeronaves.

 

Assim que entrou para a VARIG, Oskar Coester foi designado para a equipe técnica e, com 18 anos, foi a Renton, nos EUA, receber treinamento na sede da BOEING. A experiência adquirida ao longo dos treze anos em que trabalhou como gestor da área de manutenção técnica de aeronaves da VARIG, na época uma das maiores e mais conhecidas companhias aéreas privadas do mundo, foi de grande importância em sua carreira.

 

Em 1960, Oskar Coester funda a ICR (Industrial e Comercial Rio-grandense), onde trabalhava nas horas vagas e finais de semana, desenvolvendo projetos eletrônicos diversos. Em 1970, após a morte de Rubem Berta – presidente da empresa e com quem Oskar Coester tinha relação de mentoria –, ele decide deixar a VARIG e passa a dedicar-se exclusivamente à sua empresa e a seus projetos.

 

 

O desenvolvimento do Projeto Aeromovel, que lhe trouxe notoriedade internacional, teve sua gênese ao final da década de 1960, quando se deslocava do bairro do Leme, onde morava no Rio de Janeiro, até o Aeroporto Internacional do Galeão. Ele percebeu que despendia mais tempo percorrendo 20 km em terra do que os 1.124 km que separam o Rio de Janeiro de Porto Alegre por via aérea. Ele conceberia um meio de transporte inovador em via elevada, imune a congestionamentos, totalmente automático, com veículos  leves, impelidos pela força do ar. Partindo de um singelo protótipo para um ocupante, feito nos galpões de sua fábrica, passaria em apenas três anos para uma linha de demonstração na Feira de Hanôver, na Alemanha, um dos grandes destaques daquele evento.

 

Passados mais três anos, em 1983, inauguraria a tão conhecida Linha Piloto no centro da capital gaúcha, junto à orla do Guaíba, atraindo a atenção de especialistas do mundo inteiro. Em uma experiência única na vida, participou da cerimônia, em 20 de abril de 1989, ao lado de sua esposa, Elida Coester, e do presidente da Indonésia, Soeharto, de dedicação da linha do Sistema Aeromovel em Jacarta, lá conhecido como TitihanSamirono, o menino do vento. Seu projeto consolidou-se em 2013 com o início das operações do seu invento no Aeroporto Internacional Salgado Filho, que já transportou mais de sete milhões de passageiros. Hoje, são dezenas de projetos em mais de 16 países, incluindo uma linha na Colômbia e outra na ligação do Aeroporto Internacional de Guarulhos.

 

Esta é uma parte da trajetória de vida do empreendedor carismático e incansável Oskar Coester, que sempre professou seu orgulho de ser brasileiro e sua crença em nosso país, que nos deixa nessa terça-feira (17/11).

 

 

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